segunda-feira, 23 de março de 2009

RÉQUIEN AETERNAM

RÉQUIEN AETERNAM*

Estar no mundo.

Viver é um caminhar pelo tempo.

Tempo este que pulsa e se renova a cada instante.

Tempo que não pertence ao passado,

(que é a atemporal memória imaginária do vivido ).

Tempo que não pertence ao devir.


Onde está o nosso tempo então?

Hoje,

(neste instante, agora).

Tempo individual e próprio.

Tempo de viver e morrer.

Se a vida é domínio do instante...

a morte também o é.

Solitária,

Única.

No campo da dimensão temporal

depositaremos as sementes,

dos frutos colhidos

dos frutos que colheremos ao longo da nossa finita existência.

Envelhecer bem é plantar com sabedoria.

Morrer com dignidade é ter aprendido a conviver

Com a VIDA.


ENCONTRANDO UM SENTIDO


Muitas vezes visitamos os asilos de velhos, visitamos famílias, visitamos hospitais e encontramos aqueles que, imóveis, perdidos em devaneios, olhos fixos nas paredes, esperam o derradeiro fim. Fim este que, estando sempre ao nosso lado, é a condição primeira da nossa existência.

Nosso imaginário, pela perda do movimento de troca das coisas do ser com as coisas do mundo, se desestrutura. O ser não mais a si mesmo e nem percebe mais o mundo. Quebra-se o espelho, agitam-se as águas da consciência de si mesmo. E, nesta falta de sentido, de leitura do mundo e de si mesmo, o ser chama a morte, e roubando-a das mãos do devir, como último ato, arranca de si a vida.

Mas o ser, da mesma forma que possui o palpável presente, cria o invisível hábito. Hábito que imaterialmente liga os sólidos instantes. O velho vive os materiais instantes criando sua invisível história, e é nessa ambivalência, que transcende a si mesmo, sempre se reinventando.

Quando Edgar Morin (2008,p.58-9) nos diz que “a vida é um tecido mesclado ou alternativo de prosa e poesia” entende como poesiaaquilo que nos coloca num estado segundo: primeiramente, a poesia em si mesma, depois a música, a dança, o gozo e, é claro, o amor” e como prosa - estado primeiro - a nossa história, contada através dos instantes vividos. A poesia é como o vetor vertical da cruz, que potencializa e eleva o vetor horizontal do viver. As poesias musicadas tem uma força redobrada, pois casa o som puro da melodia e da harmonia com o som da poesia. Em nossa jornada no tempo, várias são as músicas que marcam essa viagem, pois nunca houve nem haverá um povo sem música.” (SOUZA, p.1217)

A música sempre esteve ligada à vida mística do homem. Na nossa história ocidental o desenvolvimento da melodia, da harmonia e da escrita musical esteve diretamente vinculada à religião. Embora depois do renascimento o movimento musical começa a se desvincular do sagrado, até hoje em todas as formas de culto ao sagrado a música e a poesia estão presentes. Muitos idosos sentem-se atraídos para a vida espiritual e a música é um meio de vivenciar este caminho de integração social, de expressão pessoal e de encontrar um sentido na vida, pois nas palavras de Alves (2006, p.50) “ a espiritualidade nos idosos pode ajudar a vencer os medos e possibilitar o surgimento de novos dons, que tendem a auxiliar em novas capacidades adquiridas com o tempo”.

Então, aqueles que se vêem velhos podem encontrar na poesia, na música, a força que leva à transcendência, como fala Caetano Veloso em um trecho de sua composição O Homem Velho, do disco Velô, de 1983:

Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron/ E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os
filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval/ Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal/ Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual/ tem coragem de saber que é imortal

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todas as músicas marcam o tempo e os tempos, marcam também, a nossa história. O poeta, através da intuição poética, descreve os sentimentos mais recônditos da alma individual e coletiva. Descreve em poucos versos os desejos mais íntimos, e com a música penetra na sociedade, no indivíduo, que nela se projeta, se encontra e se perde. Mostra que podemos ser heróicos, podemos nos recolher aos braços mornos do nosso lar, podemos convidar a vida para dançar com a morte, podemos transformar a morte em semente da imortalidade.

Mas, a poesia musicada traz, também, em si mesma, a força da vida. Força esta que impregnando o ser, transforma cada instante vivido em gozo, em amor. E o idoso carrega em sua memória musical um grande repertório, uma grande poesia que muitas vezes precisa, apenas, ser revivida, resgatada como amor, que é a própria vida. A poesia musicada tem a força horizontal da história vivida mas também é o vetor vertical da espiritualidade e do amor, que como farol pode orientar aqueles que em um dado momento perderam-se a si mesmo.

“ O importante na vida é o amor. Com todos os perigos que contém. Mas isso não é o suficiente. Se o mal que sofremos e fazemos sofrer reside na incompreensão do outro, na autojustificação, na mentira a si próprio (self-deception), então o caminho da ética – e é que introduzirei a sabedoria – reside no esforço da compreensão e não na condenação, no auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça em reconhecer a mentira para si próprio.”(MORIN, 2008, p.67)

* Repouso Eterno

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. MORIN, E. Amor Poesia Sabedoria. 8ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. 67 p.

2. FRETAS, E. V. et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006.

3. FALEIROS, V P (Org); LOUREIRO, A M L (Org). Desafios do envelhecimento: vez, sentido e voz. Brasília. Universa, 2006. 197 p.

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