domingo, 23 de março de 2008

Bioética - O envelhecimento e a manutenção da autonomia.

Bioética - O envelhecimento e a manutenção da autonomia.

Thaís Rocha e Póvoa
Mestranda em Gerontologia pela Universidade Católica de Brasília.
Disciplina Tópicos Especiais em Gerontologia.
Brasília, 23 de março de 2008.

Introdução

Não só é pertinente como indispensável, sob o meu ponto de vista, iniciar definindo o que é bioética. Segundo Goldim, bioética é uma reflexão compartilhada, complexa e interdisciplinar sobre a adequação das ações que envolvem a vida e o viver.
Aplicando esse termo à população idosa, podemos concluir que, se refere à bioética, qualquer assunto que leve à construção de meios para tornar a vida do idoso mais digna, menos dolorosa, enfim, mais feliz.
Observamos que, quando adolescentes, buscamos fervorosamente pela sonhada “independência” como forma de nos sentirmos livres, “senhores de nossas ações” e, portanto, adultos. E, essa independência, está relacionada ao sentido mais amplo da palavra – podermos ir e vir sozinhos, tomarmos nossas próprias decisões, podermos pagar pelo que consumimos, podermos direcionar nossos afetos e desejos sem que estes sejam norteados por outros. Tudo isso que define a palavra independência é vital, tanto na juventude como componente fundamental de afirmação enquanto ser humano, quanto na velhice quando torna-se ítem que parece estar sempre na iminência de ser perdido.
A ironia é que, na idade adulta, período em que geralmente temos algum idoso sob nossos cuidados (pais, tios ou avós), esses atos que demonstram independência ficam tão corriqueiros em nossas próprias vidas que às vezes nem percebemos o quanto são importantes.
E, essa independência de pensamentos e ações é o que nos torna pessoas com autonomia, o que, sem dúvida, colabora para a construção da nossa dignidade. O mais interessante é que passamos, no nosso ciclo vital, por dois momentos em que essa autonomia é uma idéia prevalente. No primeiro momento a autonomia é desejada e no segundo, às vezes 60 anos depois, ela é não só desejada como há um sentimento imenso de medo de perdê-la.
Descrevo a seguir um caso clínico da minha prática profissional que pode ilustrar muito bem como coisas simples podem ter um significado de perda de autonomia imenso no imaginário do idoso e como há familiares que se preocupam com isso, levantando questionamentos e optando pelo bem estar do seu ente.

"A dentição"

Estou em atendimento ambulatorial com a paciente A. R. S. 78 anos. Essa senhora já não mora mais em sua casa porque, em função de estar acometida de um quadro demencial que exige cuidados freqüentes, houve necessidade que ela fosse morar na casa de um filho onde tem melhores condições para se locomover, onde pode conviver com seu gato de extimação e onde o filho pode estar mais presente no cuidado diário.
A paciente se queixa de uma “dorzinha” esporádica na região posterior direita da mandíbula. Seu filho me explica que já levou a mãe em 2 dentistas e 1 cirurgião buço-maxilo-facial e que todos disseram que essa dor é secundária à má fixação da prótese dentária. Esses profissionais foram unânimes em afirmar que a prótese é muito bem feita, entretanto, em função de sua idade, a gengiva da paciente já não tem a estrutura adequada para que a prótese fique totalmente imóvel como deve. Referiram ainda que a paciente não tem a opção de colocar “grampos” de fixação da prótese porque estes são presos de forma cirúrgica no osso da mandíbula o qual já está comprometido pelo desgaste da osteoporose. Orientaram então que a paciente deveria usar diariamente um creme adesivo no interior da prótese para fixá-la já que a lesão freqüente desta na gengiva pode causar neoplasia.
Seu filho refere, em um determinado momento da consulta, que sua mãe não conseguiu usar o creme porque, ou não conseguia colocá-lo devido à dificuldade para enxergar o local exato da aplicação, ou porque não queria sentir o gosto do creme ou porque simplesmente se esquecia em função do prejuízo de memória que vem tendo secundário à demência. Relatou que tentou por uma semana colocar o creme na prótese da mãe e, em seguida, colocá-la em sua boca mas que acabou desistindo. Disse-me que desistiu ao perceber o quão invasivo estava sendo entrando no quarto da mãe logo cedo enquanto ela ainda estava de camisola, pegando sua prótese, colocando o creme, pedindo a sua mãe que expusesse a boca sem dentes para ele pressionar contra sua mandíbula um objeto do seu uso íntimo.
Ao contar-me sobre o constrangimento que sua mãe estava passando com isso e sobre o quanto ele se sentia mal, percebi o quanto aquela situação era aparentemente simples mas de extrema delicadeza. Ele relatava que sentia que a mãe, que já não tinha mais a liberdade de sua casa, nem a memória intacta, estava perdendo, com isso, a sensação de autonomia para cuidar-se minimamente e a dignidade enquanto exposta em condição de muita vergonha. Optou por parar de usar o tal creme adesivo e, apenas orientou sua mãe que, enquanto estivesse no quarto, fazendo suas atividades, ou quando não estivesse na presença de outras pessoas que permanecesse sem a prótese para que não continuasse a lesão da gengiva e, assim, que sua saúde oral fosse preservada.
Ela preferiu assim e pude observar que houve, não só a sensibilidade do filho em perceber as condições da vida da mãe de uma forma abrangente e humana, como o bom senso em pesar a determinação estritamente orgânica dos profissionais de saúde com o respeito por sua individualidade.


Considerações finais

É bastante importante reconhecer que envelhecer não significa necessariamente a perda da autonomia.
O Relatório Belmont, definiu o Princípio do Respeito às Pessoas e propôs duas convicções éticas: a primeira que os indivíduos devem ser tratados como agentes autônomos, e a segunda, que as pessoas com autonomia diminuída devem ser protegidas. Desta forma, divide-se em duas exigências morais separadas: a exigência do reconhecimento da autonomia e a exigência de proteger aqueles com autonomia reduzida.
Observamos com clareza a importância da participação da família (ou de quem está neste lugar) como agente mantenedor dessa autonomia, da dignidade e, sem dúvida da qualidade de vida do idoso. A orientação do profissional de saúde deve sempre estar aliada ao bem–estar social e psíquico do idoso e, parece-me que uma boa forma para se conseguir isso é acrescentar carinho e atenção ao conhecimento técnico-científico.


Referências Bibliográficas
Engelhardt HT. Fundamentos de Bioética. São Paulo: Loyola, 1998:17.
Envelhecimento com dependência: responsabilidades e demandas da família. Cad. Saúde Pública,19;773-81.
Goldim JR. Bioética: Origens e Complexidade. Revista HCPA 2006; 26(2):86-92

KARSH, U.M.,2003.Idosos dependentes: famílias e cuidadores. Cad. Saúde Pública,19:861-6.CALDAS, C.P.,2003 .
The Belmont Report: Ethical Guidelines for the Protection of Human Subjects. Washington: DHEW Publications (OS) 78-0012, 1978

Nenhum comentário: