domingo, 11 de maio de 2008

O RESPEITO AO IDOSO EM FACE A CORPOREIDADE E TEMPORALIDADE


Rossana Alfinito Kreis
Bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Brasília
Mestranda do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília - UCB, Brasília – DF – Brasil.
E-mail: ralfkreis@yahoo.com.br


Introdução

Nas últimas décadas conferiu-se em muitos países, especialmente nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, mudanças na estrutura etária, possibilitada pela diminuição da fecundidade e pelo aumento da expectativa de vida a partir dos sessenta anos de idade (VASCONCELOS & PEREIRA, 2006).

Nesse sentido é importante compreender o envelhecimento, processo inevitável marcado por mudanças nos órgãos e sistemas do organismo e que leva a uma diminuição da reserva fisiológica (SOUZA et al., 2002).

Essas alterações oriundas do envelhecimento são vistas de forma diferente, sobretudo pelos idosos, os quais necessitam de motivação para superar limitações naturais de seus próprios corpos (ZAWADSKI & VAGETTI, 2007).

Sendo assim, é fundamental compreender o idoso em toda a sua complexidade, visto que o ser humano, mais especificamente o idoso, apresenta não somente a parte psíquica/mental, mas também a parte física, as quais são dependentes entre si. Portanto, respeitar o corpo do idoso é fazer jus à parte física, moral e temporal da pessoa de mais idade.

O corpo e o tempo sobre a ótica do respeito ao idoso

O envelhecimento é representado por alterações que podem ser por meio de limitações corporais e da consciência da temporalidade, tendo diferentes nuances em cada idoso em virtude de sua situação social e estrutura psíquica. Assim, o corpo e o tempo se entrecruzam no envelhecer (GOLDFARB, 1997).

A velhice pode ser caracterizada de acordo com a determinação da sociedade e a forma de avistá-la. A sociedade, portanto, é também responsável por determinar a forma em que o idoso se adapta e assume a velhice (WALDOW, 1998).

Nesse sentido, muitas mulheres idosas em busca de uma imagem jovem, tendo em vista a percepção da imagem de seus corpos pela sociedade, apelam para academias de ginásticas e cirurgias plásticas. Com isso, buscam solucionar “problemas” como rugas ou outros elementos que aparecem com o processo de envelhecimento (RODEHEAVER & STOHS, 1991).

Isto não quer dizer que a atividade física seja algo que resolva apenas “problemas” estéticos da velhice, mas também pode ser considerado um coadjuvante para o envelhecer com saúde, capaz de prevenir doenças degenerativas, tão comuns entre os idosos, bem como estimular uma vida saudável e tranqüila proporcionando, inclusive, a auto-estima (ZAWADSKI & VAGETTI, 2007).

Envelhecer saudavelmente é dispor de cuidados à saúde e do reconhecimento das suas possibilidades e necessidades específicas. Ou seja, são englobadas questões que ultrapassam a saúde física, referindo-se ao respeito, à segurança e à oportunidade de expressão, sejam em sentimentos, emoções, experiências ou mesmo na execução de atividades na comunidade (PENNA et al., 2006).

É desafiador fazer com que idosos aproveitem o tempo de forma qualitativa, saudável, independente, autônoma e, a medida do possível, com melhor qualidade de vida. Nesse sentido, a imagem corporal apresenta papel importante na consciência do indivíduo. O desenvolvimento da auto-imagem positiva conduz a um estado de vida plena e realizada para o ser humano, no caso o idoso (BENEDETTI et al., 2003).

Desse modo, o corpo vem transmitir movimento, sensibilidade e expressão criativa, não sendo considerado coisa ou simplesmente abstração. Nesta concepção, o corpo e a mente caracterizam-se como unidade, opondo-se à perspectiva mecanicista, em que corpo e mente refletem a justaposição das partes (GONÇALVES, 2003).

Tais reflexões nos impulsionam a fazer examinações sobre as nossas condutas, inatas ou adquiridas, perante as relações entre o organismo, o meio e sua história evolutiva (MATURANA & VARELA, 1995).

Portanto, ter respeito ao corpo do idoso é respeitá-lo como ser humano, dotado de complexidades que ultrapassam a questão da sua materialidade. Diante disso, cuidadores e gerontólogos têm-se preocupado cada vez mais em resgatar o valor do corpo do idoso, corpo este que está intimamente interligado com a questão da temporalidade e das emoções.

Considerações finais

O envelhecimento humano é caracterizado por mudanças inevitáveis dos órgãos e sistemas do indivíduo. Essas alterações podem ser acompanhadas por limitações corporais e da consciência da temporalidade.

Desse modo, são freqüentes, entre idosos, percepções divergentes sobre a velhice (ZAWADSKI & VAGETTI, 2007), sobretudo quando se tem uma sociedade fortemente influenciadora e impositiva (WALDOW, 1998).

Assim, ao considerarmos a questão da corporeidade e da temporalidade do idoso estamos vislumbrando com elementos capazes de traduzir, de certa maneira, a complexidade do organismo referenciado.

Conclui-se, então, que o tempo e o corpo caminham como unidade, refletindo a percepção do idoso sobre a vida, e ao considerá-los estamos de alguma forma respeitando este indivíduo e suas diferentes alusões em momentos distintos de sua própria vivência.

Referências Bibliográficas

BENEDETTI, T.B.; PETROSKI, E.L.; GONÇALVES, L.T. Exercícios físicos, auto-imagem e auto-estima em idosos asilados. Revista Brasileira de Cineantropometria & desempenho humano, v. 5, n. 2, p.69-74, 2003.

GONÇALVES, C.J.S. Corporeidade humana e enação implicações desta hipótese na educação. Corpo em movimento, v. 1, n. 1, p. 137-154, 2003.

MATURANA, H.; VARELA, F. A árvore do conhecimento. Campinas: SP: editorial Psy II, 1995.

PENNA, F.B.; ESPÍRITO SANTO, F.H. O movimento das emoções na vida dos idosos: um estudo com um grupo da terceira idade. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 8, n. 1, p. 17-24, 2006.

RODEHEAVER , D.; STOHS, J. The adaptative misperception of age in older women: sociocultural images and psychological mechanisms of control. Educational Gerontology; An International Bimonthly Journal, v. 17, n. 2, p.141-156, 1991.

SOUZA, J.A.G. (In memorian); IGLESIAS, A.C.R.G. Trauma no idoso. Rev. Assoc. Med. Bras., v. 48, n. 1, p. 79-86, 2002.

TROEN, B.R. The biology of aging. The Mount Sinai Journal of Medicine, v. 70, n. 1, p. 3- 22, 2003.

VASCONCELOS, A.M.N.; PEREIRA, M.G. Envelhecimento da população brasileira. In: GOMES, L.; PEREIRA, M.G. (Org.). Envelhecimento e saúde. Brasília: Universa, 2006. p. 9-18.

WALDOW, V.R. Cuidado humano: O resgate necessário. Rio Grande do Sul: Sagra Luzzatto, 1998.

ZAWADSKI, A.B.R.; VAGETTI, G.C. Motivos que levam idosas a freqüentarem as salas de musculação. Movimento e percepção, v. 7, n. 10, 2007.

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