
Thaís Rocha e Póvoa
Mestranda em Gerontologia – UCB
Disciplina Bioética
Pavão Misterioso
(Ednardo)
Pavão misterioso nessa cauda aberta em leque
Me guarda moleque de eterno brincar
Me poupa do vexame de morrer tão moço
Muita coisa ainda quero olhar
INTRODUÇÃO:
Se por um lado a morte nos causa medo e insegurança, por outro, damos a ela um simbolismo misterioso que captura nossos olhares e nossa atenção nos levando até a ter uma certa admiração por ela. Essa ambivalência de sentimentos está presente em qualquer época da vida e, apenas é mais angustiante na velhice porque o tema “morte” está mais presente no imaginário do idoso do que na população geral.
Vivemos na crença cultural e, nem sempre verdadeira de que o idoso morre antes do jovem.
Estamos submetidos a uma cultura que nos faz observar a morte como algo inevitável mas temível. Ou seja, a morte é vista pela maior parte das pessoas de cultura ocidental cristã como um acontecimento que tanto nos leva a atitudes de evitação como “bater na madeira”, “fazer o sinal da cruz” quando passamos por alguma situação de risco em que poderíamos ter morrido quanto a atitudes que demonstram o quanto ela nos seduz, como por exemplo quando paramos nosso olhar sobre alguém morto dentro de um caixão ou quando nos aglutinamos nas ruas da cidade para observar o corpo no chão de quem acabou de ser atropelado.
O medo do desconhecido, a insegurança de nos desvincularmos de pessoas queridas que ficarão vivas, a dificuldade em deixar bens materiais e até a concretude relacionada ao procedimento que tomarão com nosso corpo após nossa morte contrasta com sentimentos de curiosidade que nos prendem em frente à TV quando assistimos a um programa sobre espíritos, quando observamos com curiosidade corpos mortos nas ruas, quando ficamos com uma certa excitação quando entramos em uma sala de estudos anatômicos ou em um Instituto Médico Legal.
O medo está diametralmente oposto e em mesma intensidade que a admiração quando o assunto é a morte.
AMBIVALÊNCIA:
A atitude que adotamos em relação à morte está longe de ser direta. A qualquer um que nos dê ouvidos, em qualquer época de nossas vidas, tendemos a nos mostrar naturalmente preparados para a morte. Tendemos a sustentar que a morte é o resultado necessário da vida, que cada um deve à natureza uma morte, que se deve esperar “pagar a dívida” — em suma, que a morte seria natural, inegável e inevitável.
AMBIVALÊNCIA:
A atitude que adotamos em relação à morte está longe de ser direta. A qualquer um que nos dê ouvidos, em qualquer época de nossas vidas, tendemos a nos mostrar naturalmente preparados para a morte. Tendemos a sustentar que a morte é o resultado necessário da vida, que cada um deve à natureza uma morte, que se deve esperar “pagar a dívida” — em suma, que a morte seria natural, inegável e inevitável.
Na realidade, contudo, estamos habituados a nos comportar como se tudo fosse diferente.
Revelamos uma tendência inegável para pôr a morte de lado, para eliminá-la da vida. Observe que é quase impossível imaginar nossa própria morte e, sempre que tentamos fazê-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores. Por isso, a escola psicanalítica pôde aventurar-se a afirmar que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade.
Quando se trata da morte de outrem, o homem civilizado cuidadosamente evita falar de tal possibilidade no campo auditivo da pessoa condenada. Apenas as crianças desprezam essa restrição e desembaraçadamente se ameaçam uma às outras com a possibilidade de morrer, chegando inclusive ao ponto de fazer a mesma coisa com alguém que amam, como, por exemplo: “Querida mãezinha, quando você morrer eu farei isso ou aquilo”.
Dificilmente o adulto civilizado sequer pode alimentar o pensamento da morte de outra pessoa, sem parecer diante de seus próprios olhos repugnante ou malvado; a menos que, naturalmente, como médico ou advogado ou algo assim, tenha de lidar com a morte em caráter profissional.
Menos ainda ele se permitirá pensar na morte de outra pessoa se algum ganho em termos de liberdade, propriedade ou posição estiver ligado a ela.
Mesmo sabendo que poderíamos ser úteis orientando uma pessoa (especialmente um idoso) que está na iminência da morte a dar a seus bens o fim que achar mais oportuno e, mesmo sabendo que nos omitindo dessa tarefa, poderemos estar contribuindo para que problemas concretos aconteçam caso a morte ocorra, não nos sentimos à vontade para fazermos essa orientação.
O medo de sermos interpretados como desejantes da morte alheia, de estarmos desrespeitando a vida daquela pessoa (como se a morte não fizesse parte da vida), ou simplesmente uma crença mística inconsciente de que tocar nesse assunto pode abreviar sua vida nos faz assumirmos a postura de “cruzarmos os braços e observarmos”.
Difícil julgar se essa postura é covarde ou prudente... Somos aquilo que nossa cultura nos permite ser... Apenas uma metonímia de nós mesmos.
Esse nosso pudor não impede, naturalmente, a ocorrência de mortes; quando uma de fato acontece, ficamos sempre profundamente atingidos e é como se fôssemos muito abalados em nossas expectativas.
Para com a pessoa que morreu, adotamos uma atitude especial, algo próximo da admiração por alguém que realizou uma tarefa muito difícil. Deixamos de criticá-la, negligenciamos suas possíveis más ações, e julgamos justificável realçar tudo o que seja de mais favorável à sua lembrança na oração fúnebre e sobre a lápide.
Reflexo de extrema devoção? Culpa? Amor? Apenas uma necessidade cultural cristã?
A morte está tão associada a perdas e ainda preenche o imaginário humano com uma carga afetiva de pavor tão grande que, idosos que, em quadros demenciais fazem sintomas psicóticos, geralmente estruturam delírios de roubo ou de ciúme. No momento em que a censura falha e o inconsciente aparece, surge no discurso desse idoso o conteúdo delirante do medo de ser roubado e, como mais uma dentre tantas perdas que ocorreram em sua vida, o medo delirante auto-referente – roubo de sua própria vida.
Também mostra, o quanto nosso discurso de que estamos familiarizados com a morte está mais próximo da fantasia do que da realidade, nosso completo colapso quando a morte abate alguém que amamos — um progenitor ou um cônjuge, um irmão ou irmã, um filho ou um amigo íntimo.
Nossas esperanças, nossos desejos e nossos prazeres jazem no túmulo com essa pessoa, nada nos consola, nada preenche o vazio deixado pelo ente perdido.
Essa dor que sentimos com a morte de alguém, tanto está ligado à saudade e à perda da convivência diária com alguém de quem gostamos como, de forma inconsciente, com a raiva de termos sido abandonados, com a inveja por vermos que aquele que morreu já cumpriu sua inevitável tarefa de morrer e, portanto, já não vive mais a angústia da espera, já teve a revelação do mistério que envolve a morte. A dor também pode estar relacionada com o nosso mecanismo de assumirmos parte da vida de quem morreu como se tivéssemos o ônus de terminar suas tarefas para redimirmos-nos da culpa que sempre está presente na nossa psique neurótica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
É preciso perceber o quanto nossa atitude para com a morte exerce poderoso efeito sobre nossas vidas. A vida empobrece, perde em interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser arriscada. Nossos laços emocionais, a insuportável intensidade de nosso pesar, nos desestimulam a cortejar o perigo para nós mesmos e para aqueles que nos pertencem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
É preciso perceber o quanto nossa atitude para com a morte exerce poderoso efeito sobre nossas vidas. A vida empobrece, perde em interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser arriscada. Nossos laços emocionais, a insuportável intensidade de nosso pesar, nos desestimulam a cortejar o perigo para nós mesmos e para aqueles que nos pertencem.
Quem tem muito medo da morte tende a passar a vida evitando prováveis alegrias pensando em possíveis tristezas porque não se arrisca, não se entrega totalmente à vida. Assim, tentando evitar situações que coloquem a vida em risco, acabam “se matando em vida”. Muitos idosos chegam à senilidade com a percepção de que passaram toda a vida correndo da morte e, consequentemente, correndo da vida.
Inúmeras ações perigosas, mas de fato indispensáveis ou absolutamente prazerosas, nem sequer chegam a ser consideradas. Ficamos paralisados pelo pensamento de quem irá substituir o filho junto à mãe, o marido junto à esposa, o pai junto aos filhos...
Assim, a tendência de excluir a morte de nossos projetos de vida traz em seu rastro muitas outras renúncias e exclusões.
Somente na ficção, pode ser preenchida a condição que possibilita nossa reconciliação com a morte. Morremos com o herói com o qual nos identificamos; contudo, sobrevivemos a ele, e estamos prontos a morrer novamente, desde que com a mesma segurança, com outro herói.
Nosso hábito é dar ênfase à causação fortuita da morte — acidente, doença, infecção, idade avançada; dessa forma, fazemos um esforço para reduzir a morte de uma necessidade para um fato fortuito. Talvez isso nos leve a uma condição de conformismo que seja sintônico com a covardia humana – “O que é irremediável, remediado está”. Ou talvez isso ocorra em função da imensa dificuldade do ser humano em assumir sua finitude e, portanto, abrir mão de sua ilusão narcísica de imortalidade.
É a morte causa de repulsa, de atenção ou de desejo? É a morte uma grande indutora de sofrimento quando nos tira a possibilidade de conviver com pessoas amadas ou causa de sofrimento porque, pelo mesmo motivo, nos traz à consciência nossso egoísmo? Sedutora e indicadora de libertação ou cruel?
BIBLIOGRAFIA
1. D'Assumpção, EA. As cinco fases. In os que partem e os que ficam. 6ª.ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 1997; 39-45.
2. Freud, S. Obras Completas vol. XIV. Nossa atitude para com a morte, 1967.
3. Kastenbaum, R. Death and bereaverment in later life. In Kutscher, AH (ed) - Death and bereavement Springfield IL, Charles C Thomas 1969; 28-54.
4. Mannoni, M. “O nomeável e o inominável”. Jorge Zahar Editor,Rio de Janeiro, 1995.
BIBLIOGRAFIA
1. D'Assumpção, EA. As cinco fases. In os que partem e os que ficam. 6ª.ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 1997; 39-45.
2. Freud, S. Obras Completas vol. XIV. Nossa atitude para com a morte, 1967.
3. Kastenbaum, R. Death and bereaverment in later life. In Kutscher, AH (ed) - Death and bereavement Springfield IL, Charles C Thomas 1969; 28-54.
4. Mannoni, M. “O nomeável e o inominável”. Jorge Zahar Editor,Rio de Janeiro, 1995.
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