segunda-feira, 23 de março de 2009

Cuidados ao fim da vida

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um fenômeno mundial que ocorre tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. O Brasil que outrora enfrentou, tantas lutas contra as doenças infecto-contagiosas, enfrenta atualmente as crônico-degenerativas na intenção de prolongar a vida com qualidade. O aumento da população idosa é um fato decorrente da diminuição da mortalidade e fecundidade. Alves (2006) comenta que quando a gerontologia surgiu no Brasil, as preocupações eram que se fizessem reflexões sobre o envelhecimento na intenção de se prolongar a vida humana e descobrir novas formas de se atingir a longevidade.
Os cuidados ao fim da vida ocorrem quando os tratamentos e intervenções medicamentosas já foram feitas e já não há mais expectativa de vida, a partir daí entra a necessidade do uso dos cuidados paliativos. São cuidados prestados ao fim da vida, geralmente aos portadores de doenças incuráveis ou fora de possibilidade terapêutica.
Segundo Mccoughlan (2006) é costume dos países ricos negar a morte e a velhice onde as pessoas se sentem eternamente jovens e saudáveis e portanto a morte não tem vez e deve ser escondida, enqunto que nos países em desenvolvimento onde as necessidades básicas são priorizadas, questões como cuidados paliativos são considerados artigos de luxo.

Smeltzer e Bare (2005, p. 5) lembram que desde 1858, época em que Florence Nightingale (1820-1910) – a precursora da enfermagem no mundo, escreveu que o “objetivo da enfermagem é colocar o paciente na melhor condição para que a natureza atue sobre ele”, e definiu a enfermagem como “uma arte; e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto a obra de qualquer pintor ou escultor; pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore comparado ao tratar do corpo vivo, o templo do espírito de Deus? É uma das artes; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes” (DONAHUE, 1996, p.35).
Com o passar do tempo a definição de enfermagem evoluiu e a American Nurses Association – ANA definiu a enfermagem como o diagnóstico e tratamento das respostas humanas à saúde e a doença.
Atualmente a enfermagem defronta com novos campos de oportunidades para a prestação de cuidados cada vez mais sofisticados. A relação de cuidado é acompanhada de uma troca de experiências vividas entre o cuidador e o ser cuidado, mas essa troca depende de crenças, valores e atitudes de cada um. O compartilhar requer o querer, a abertura para o outro, a valorização do ser humano que traz para o cuidado uma história de vida, de experiências e conhecimento.
A valorização do ser humano requer um cuidar com qualidade e humanização. Pessini & Bertachini (2006) lembram que é preciso considerar a essência do ser com respeito à sua singularidade e que é preciso haver humanização nos cuidados além de valorizar o significado da vida e respeitar os direitos do paciente e entender que ele é sujeito de sua própria história.
Vivenciando o crescimento da população que atinge idades mais avançadas e conseqüente aumento da procura aos serviços de saúde, a enfermagem se vê diante do desafio de cuidar do idoso com todas as suas particularidades, que muitas vezes a exerce sem a capacitação e reflexão necessárias à sua singularidade.
Devido a esse aumento da esperança de vida, surgem as doenças crônico-degenerativas, onde os cuidados paliativos passaram a ter um papel vital nos cuidados ao portador de doenças incuráveis na intenção de reduzir seu sofrimento.
Oliveira e Gregoratto (2006) observam que para assistir ao idoso é preciso um trabalho multiprofissional e interdisciplinar com trabalho complementar e nunca competitivo e observa que é interessante perceber que a Enfermagem Gerontológica destaca-se num processo específico baseado na compreensão de parâmetros físicos, emocionais e de ordem social, pelo qual a atuação da equipe multiprofissional agindo de forma interdisciplinar desmistifica o papel de cada profissional e deixa clara que a avaliação clínica do paciente idoso exige semiotécnica comedida e bem estruturada para que não haja confusão entre alterações próprias do envelhecimento (senescência)e aqueles decorrentes de agravos que podem acometer o indivíduo de idade avançada (senilidade). (OLIVEIRA E GREGORATTO (2006, p.160-161)

A convivência com idosos pobres e doentes, já em processo de morrer, cuidados pela equipe de enfermagem provoca uma profunda reflexão sobre as ações que desenvolvemos com pacientes e sua família. Py (2004) comenta que encontramos a compreensão do fazer ético no convívio com pacientes idosos, em processo de despedida da vida com seus corpos incapacitados e emudecidos.
Albuquerque (2003) observa que, ao adoecer, o idoso é atingido física e psíquicamente e não se sabe dizer qual o aspecto causa maior sofrimento. Sua auto-estima fica comprometida com sentimentos negativos, ausência de suporte social, a atividade sexual já não tem importância e ausência de lazer.
O enfermeiro pode atuar de forma que melhore a qualidade de vida do idoso, desde a educação em saúde, gerência de recursos humanos e de materiais, além de uma assistência qualificada. Smeltzer e Bare (2005) observa que a capacidade dos aparelhos em prolongar a vida suscitou questões éticas relacionadas à qualidade de vida, um morrer mais prolongado, alívio da dor e controle dos sintomas, que levantou uma questão ética básica que é se devemos prolongar a vida por intervenções.
Muitas situações requerem a retirada de medidas de suporte da vida, em outras situações quando se pensa que não há mais nada a fazer, há que se aliviar a dor e sofrimento no paciente portador de uma doença em estado avançado. Pode-se ainda realizar cuidados paliativos isto é cuidados ativos e totais aos pacientes com doenças que não respondem mais aos tratamentos curativos. Neste contexto o controle da dor e de outros sintomas ou problemas sociais e espirituais, são de grande importância podendo trazer melhor qualidade de vida para o paciente (BRASIL, 2001).
Burlá (2006) relata que com a doença em estágio avançado, sem possibilidades de cura, são aplicadas técnicas específicas que melhorem o conforto, mas que não interfira na sobrevida. Conforme lembra Pessini (2006) Dame Cicely Saunders a precursora dos cuidados paliativos ao orientar que quando se pensa que não há mais nada a fazer, quando a cura da doença não é mais possível, em que conceitua como dor total, isto é, a dor que vai além da dor física, isolamento social, sofrimento psíquico e espiritual que a doença provoca, são utilizados os cuidados paliativos que mostram que a morte não é um fracasso profissional e sim um processo natural e a vida continua até a chegada da morte, cabendo então aos profissionais de saúde propiciar uma morte digna.
Além dos vários cuidados paliativos encontra-se a hipodermóclise um veículo de se fazer paliação que pode substituir perfeitamente a venóclise ou punção venosa que pode ser dolorosa e exigir contenção mecânica do membro puncionado além de risco de precisar repuncionar devido à fragilidade capilar. No Brasil e principalmente nos países desenvolvidos, a hipodermóclise (hidratação subcutânea) está sendo utilizada em pacientes de difícil acesso venoso, agitados, com dificuldade de deglutição ou ingestão oral insuficiente, em serviços de assistência domiciliar e na administração de determinadas substâncias em que a rapidez de absorção não seja uma exigência. (MARQUES et al., 2005).
O aumento da esperança de vida e das doenças crônicas fez com que os cuidados paliativos passassem a ter um papel vital na área da medicina geral. Esta área da medicina consiste em cuidados de saúde que previnem e minimiza o sofrimento nas doenças incuráveis como o câncer por exemplo (MARQUES et al., 2005).
A comunidade que se beneficia destes cuidados é constituída pela população geriátrica, por doentes em reabilitação e por doentes terminais (oncológicos e não oncológicos). Todos estes doentes beneficiam dos princípios gerais da paliação trabalho em equipe, controle rigoroso dos sintomas, comunicação adequada e apoio à família. Nestes doentes, a via ideal de administração de fármacos e soros deve ser fácil de utilizar, de eficácia demonstrada, pouco agressiva, com mínimos efeitos colaterais e confortáveis para o doente. (MARQUES et al., 2005).
A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1990, através de um comitê voltado para a temática do alívio da dor do câncer e de cuidados paliativos firmou o conceito de cuidados paliativos que são os cuidados totais a pacientes cuja doença não responde a tratamento curativo. Sendo fundamental o controle da dor, de outros sintomas, da hidratação básica que pode ser feita á noite pela via subcutânea, não sendo necessário se atingir os níveis ideais de hidratação, e sim o conforto do paciente e de problemas psicológicos, sociais e espirituais (BURLÁ, 2008).
O foco do cuidado paliativo é o todo da pessoa, pois curar não é mais o objetivo, não se pode mais curar a doença. Mccoughlan (2006) observa que em todo o mundo sabe-se que muitas pessoas vivem e morrem com sofrimentos desnecessários. Muitas doenças podem causar dor tão intensa, que vai além de sintomas físicos e sofrimento emocional que tornam a vida insuportável. Existem tratamentos e cuidados simples que podem melhorar a qualidade de vida destes pacientes. Convém que se atenda a esta possibilidade também nos asilos.
O aumento da esperança de vida e das doenças crônicas fez com que os cuidados paliativos passassem a ter um papel vital na área da medicina geral. Esta área da medicina consiste em cuidados de saúde que previnem e minimizam o sofrimento nas doenças incuráveis como o câncer, por exemplo.
A qualidade de vida do paciente terminal é alcançada quando valorizamos a dignidade do paciente e resgatamos o sentimento de compaixão, tolerância e solidariedade com o outro. Em vários momentos é preciso negociar, assumir decisões e falar em defesa do paciente. Agir como defensor do paciente significa experimentar a alegria dos que se recuperam ou a tristeza e a raiva dos que não se recuperam e de seus familiares. Muitas vezes o paciente é ignorado ou tratado como criança.
Burlá (2006) explica que diante do idoso portador de doenças crônicas e possíveis complicações com prejuízo da qualidade de vida, os profissionais precisam atuar de forma mais humanística e acompanhamento clínico rigoroso. Pessini e Bertachini (2006) lembram que é difícil amar o paciente terminal como se ama um recém-nascido, mas é preciso refletir que assim como fomos ajudados a nascer, muitos precisam ser ajudados a morrer, fundamentando o atendimento ao fim da vida com competência e sensibilidade.

REFERÊNCIAS
ALVES, V. P. A religião e os idosos. In: FALEIROS, V. P.; LOUREIRO, A. M. L. (Org.). Desafios do envelhecimento: vez, sentido e voz. Brasília DF: Universa, 2006.p.45-55.

ALBUQUERQUE, S. M. L. Qualidade de vida do idoso. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
AMERICAN NURSES ASSOCIATION . Council on Continuing Education of Staff Development. Roles and responsibilities for continuing education and staff development across all settings. [s.l.}, 1992.

BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Cancer. Cuidados paliativos oncológicos: controle de sintomas. Rio de Janeiro: INCA, 2001.

BURLÁ, C. Paliação: cuidados ao fim da vida. In: FREITAS, E. V. et al. Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. p. 1079-1089.


DONAHUE, P. Nursing, the finest art: an illustrated history. 2th.. St Louis: Mosby Company; 1996.

MARQUES, C.; NUNES, G.; RIBEIRO, T.; SANTOS, N.; SILVA, R.; TEIXEIRA, R. Terapêutica subcutânea em cuidados paliativos. Revista Port. Clin. Geral. 21 :563-8. 2005.

MCCOUGHLAN, M. A necessidade de cuidados paliativos. In: PESSINI, L; BERTACHINI L. Humanização e cuidados paliativos. 3. ed. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2006. cap. 11.

OLIVEIRA, M. L. C.; GREGORATTO, Z. D. A. Avaliação do paciente geriátrico: aspectos relevantes para a enfermagem. In: FALEIROS, V. P.; LOUREIRO, A. M. L. Desafios do envelhecimento: vez, sentido e voz. Brasília: Ed. Universa, 2006. p. 159-179.

PESSINI, L.; BERTACHINI (Org.). Humanização e cuidados paliativos. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

PY, L. Velhice nos arredores da morte: a interdependência na relação entre idosos e seus familiares. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

Dame Cicely Saunders a precursora dos cuidados paliativos no mundo afirmava que

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