Sábado, 29de Março de 2008
Do sonho à realidade – Considerações sobre o Núcleo de Pesquisa Avançada para a Terceira Idade da Universidade de Brasília (NEPTI)
Mestranda: ALDA ABRAHÃO FAIAD GÓES
Qualquer um que para de aprender é velho, quer aos 20 anos ou aos 80.
Qualquer um que continua aprendendo permanece jovem.
A coisa mais “importante na vida é manter sua mente jovem.”
Henry Ford
INTRODUÇÃO
Apesar de dificuldades e obstáculos, existe somente uma idade para o indivíduo ser feliz, e planejar com energia a realização de sonhos adiados. Essa idade tão fugaz na vida do ser humano é o que podemos chamar de “presente” que tem duração do “instante” que passa e que não volta mais.
Por ocasião da realização da 52ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no ano 2000, na Universidade de Brasília a antropóloga e pesquisadora Maria Laís, relata como buscou a realização de um sonho como militância da ciência: criar um espaço na universidade para os idosos. Após observar a solidão na qual viviam as gerações mais velhas do DF, resolveu lutar para inclusão do idoso na universidade. Os dados do IBGE/PNUD – 1991 mostravam na ocasião a proporção total de idosos de Brasília maior que a do Brasil.
O presente trabalho visa dar visibilidade aos desafios encontrados entre a implantação e a efetivação dos espaços criados para a terceira idade mais criativa na Universidade de Brasília, através da parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência-SBPC, visando à socialização, interação e difusão de benefícios à sociedade e ao indivíduo idoso do Distrito Federal.
Criação do Núcleo de Pesquisa para a Terceira Idade – (NEPTI)
Por ocasião da coordenação de uma pesquisa para Inep/CNPQ intitulada “Juventude e Lazer” durante a coleta de dados da amostra procuraram a pesquisadora, numerosos idosos, a Dra. Laís, observou nesta ocasião, a solidão na qual viviam as gerações mais velhas. O número de idosos era expressivo, sem distinção de gêneros e nas diferentes localidades do Distrito Federal. Esta experiência motivou a criação do Núcleo de Pesquisa para a Terceira Idade (NEPTI) LOUREIRO (2004).
O surgimento de uma universidade mais engajada na sociedade, voltada para a gerontologia educacional, dentro do contexto da evolução da educação de idosos, surgiu na Europa na década de 60. No Brasil o ingresso da universidade na área da velhice vem sendo lento, seletivo e gradual. Os primeiros serviços de geriatria foram criados nas décadas de 60 e 70, no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e em São Paulo (Cachione 2004)
No Distrito Federal, a Universidade de Brasília, pelo ato do Reitor Cláudio Todorov, em 31 de maio de 1994, o referido núcleo localizado no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (CEAM/UnB) foi coordenado pela Dra. Maria Laís Mousinho Guidi por 27 anos. A pesquisadora e professora aposentada é, atualmente, coordenadora emérita do NEPTI da UnB. LOUREIRO (2004).
Conferência: A Universidade de Brasília na procura de uma socialização mais criativa na Terceira Idade
Em sua conferência, a antropóloga Dra. Laís faz um apelo veemente para que as atividades com os idosos, na universidade, sejam repensadas em conjunto com os próprios idosos, com os setores envolvidos e aos quais se destinam os estudos sobre a terceira idade na academia, tendo poder decisório na UnB e no Estado. Quer a conjugação de esforços e que a Universidade procure ser mais criativa na socialização das suas iniciativas e atividades com os idosos. A conferencista define “socialização”, objeto da sua preocupação, como a “interação e difusão de benefícios à sociedade e ao indivíduo”, afirma ser o tema desafiador. Não se prende só à integração do idoso com a sociedade, alongando a expectativa e a qualidade de vida com avanços da medicina, mas agregando-se e estruturando-se Ministérios: Saúde, Previdência e Assistência Social, Justiça, Trabalho, Cultura, Esporte e Turismo, bem como as Secretarias de Saúde, da Educação e a Subsecretaria de Assuntos do Idoso (SAI).
A omissão do Ministério da Educação quanto às questões relativas à Terceira Idade referindo-se a Lei n. 8.842, sobre a Política Nacional do Idoso, é visível, segundo a pesquisadora. O projeto “Educação e Cultura, na Terceira Idade, enviado ao citado ministério, recebeu o seguinte despacho: “A professora Laís deve se dedicar a investigar os problemas das escolas que são muitos. A Terceira Idade é problema para o Ministério da Previdência e Ação Social e para o Ministério da Saúde”. É que mostra Cachioni (2004), que, na atualidade, as questões ligadas à velhice e ao processo de envelhecimento representam um desafio para estudiosos e pesquisadores de diferentes áreas.
O que os idosos buscam na Universidade
Para a antropóloga e pesquisadora, os velhos recorrem à Universidade procurando dar um novo sentido às suas vidas já mais vividas que a vida dos demais, pertencendo, dando algo de si, algo daquilo que fizeram durante toda a vida e de que ainda sentem orgulho em poder distribuir, socializar, ensinar, e não só receber. A reciprocidade de valorização constante nas oportunidades de ainda ensinar e apreender, é fator importante, senão imprescindível, para o ajustamento do homem e da mulher idosos na nova fase da existência. Deixar o idoso interagir, e não só receber a divulgação do acontecido, é necessário e oportuno em espaços culturais, núcleos ou universidades da Terceira Idade. A pesquisadora ressalta como proposta, um trabalho de base para a construção do pensamento científico que permita livrar o aluno idoso de crendices, superstições e mitos que obscurecem o raciocínio e o escravizam, principalmente nesta fase da vida, e atividades que oportunizem por em prática os valores sociais da vida brasileira – base de cidadania consciente.
Projeto “O Idoso em sua Comunidade”
Em 1999, no mês de junho, a Dra. Laís realizou uma Pesquisa Acadêmica patrocinada pelo CNPq “O Idoso no Contexto Familiar, no Distrito Federal. após o término da referida pesquisa, sensibilizada com a situação de isolamento do idoso, Aldemita Portela Vaz de Oliveira, hoje com 75 anos, auxiliar da mencionada pesquisa idealiza um Projeto visando à inclusão social do idoso do DF, estimulando-os à luta pela melhor qualidade de vida para: revigorar a auto-estima; favorecer o congraçamento entre os integrantes da comunidade; criar locais de encontro para troca de experiências, propiciarem a oportunidade de divulgação de habilidades; abrir espaços para realização de palestras e cursos, ministrada inclusive pelos idosos; desenvolver lideranças. O público alvo é constituído por moradores nas quadras, pois a autora justifica que a pesquisa acadêmica da qual participou, concluiu que, nas classes A e B era grande o isolamento do idoso.
O atual projeto conta hoje com cinco grupos: SQN-302; SQN-410; SQN-116; EQS-303/304 e Lago Norte. Os encontros são semanais das 15 às 17 horas.
A coordenadora atual do NEPTI descreveu o Projeto como iniciativa do Núcleo, o que foi contestado pela real autora, que reivindicou correção, e se instalou uma crise. Tal fato fez com que o Projeto “O Idoso em Sua Comunidade” fosse retirado do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Terceira Idade, da Universidade de Brasília, pela coordenadora. Aldemita juntamente com a Dra. Laís, hoje com 80 anos, e a coordenadora do Grupo do Lago Norte, tentam junto à Reitora de Extensão da UnB, uma nova parceria.
Considerações finais
Abrir caminhos para ampliar limites, este é o lema de idealizadores comprometidos com a melhoria da condição de vida do idoso, considerando que há sempre tempo para realizar os sonhos adiados.
Em Brasília, onde temos um acentuado número de idosos, assistimos à construção da educação gerontológica, de políticas acadêmico-científicas direcionadas à busca das questões associadas ao processo de envelhecimento, à velhice e aos idosos. A criação, implantação e a manutenção de programas para o segmento idoso, no entanto, pode ser considerado um desafio a ser vencido. Em virtude da heterogeneidade de necessidades, motivações e interesses existentes nos grupos de idosos, gerada pelas particularidades das trajetórias de vida, sugerem investimentos na criação e no aprimoramento de metodologias que valorizem as experiências acumuladas e que tornem o aluno idoso um agente de seu próprio aprendizado, são estas propostas que fazem com que o Projeto “O Idoso em Sua Comunidade” não seja extinto e possa beneficiar não só os idosos como também os não-idosos e a sociedade como um todo.
LOUREIRO, Altair Macedo Lahud Terceira Idade: ideologia, cultura, amor e morte.Brasília:Universidade de Brasília, 2004.
PESSINI, Leo. “Bioética, envelhecimento humano e dignidade no adeus à vida”. In FREITAS, E.V.; PY, L., A. L.; CANÇADO, F. A. X.; DOLL, J. & GORZONI, M.L. (orgs.). Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, 2ª ed.; pp.154-163.
CACHIONI, Meire & NERI, Anita Liberalesso Educação e Gerontologia: desafios e oportunidades. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 99-115 - jan./jun. 2004. Disponível em: http://www.upf.br/seer/index.php/rbceh/article/viewFile/49/56
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