segunda-feira, 14 de abril de 2008

Educação do Idoso e Auto-Estima

O PROCESSO DE APRENDIZAGEM DO IDOSO COMO REESTRUTURADOR DA AUTO-ESTIMA


Thaís Rocha e Póvoa
Mestranda em Gerontologia pela Universidade Católica de Brasília.Disciplina Tópicos Especiais em Gerontologia.Brasília, 12 de abril de 2008.



INTRODUÇÃO:


Estando em contato com a população idosa, observamos que parte dos fatores que contribuem para a baixa auto-estima e, consequentemente para o surgimento de várias limitações e de sintomas psiquiátricos como rebaixamento de humor e ansiedade, é a crença em falsas premissas que estão disseminadas em nossa cultura.
Dentre essas premissas, estão:

1. O IDOSO PERDE A CAPACIDADE DE APRENDER.
2. O IDOSO É INCAPAZ DE MEMORIZAR ALGO.
3. A INTELIGÊNCIA DIMINUI COM A IDADE.
4. O IDOSO PERDE TODA CAPACIDADE SEXUAL.
5. A VELHICE É DOENCA.
6. O IDOSO ESTÁ MAIS PERTO DA MORTE.
7. O IDOSO NAO TEM FUTURO OU SONHOS.

O trabalho de educação, de esclarecimento, a respeito desses tópicos e de tantos outros aos idosos tem extrema importância para devolver-lhes a segurança, a auto-confiaça, a auto-estima e, consequentemente, a autonomia e a qualidade de vida.
Para isso, uma equipe multidisciplinar, composta por médico, terapeuta ocupacional, psicólogo, enfermeiro e assistente social, devem trabalhar juntos tendo um único objetivo – educar os idosos e contribuir para que eles entendam o que é real e o que é mentira a respeito desses tópicos, contribuir para que eles tenham uma visão crítica a respeito do que é dito sobre a velhice e para que possam se proteger dos preconceitos não deixando que estes impregnem em seus próprios conceitos a respeito de si mesmos.


DISCUTINDO SOBRE OS TÓPICOS MENCIONADOS ACIMA:


È, absolutamente, uma inverdade o fato de que o idoso perde a capacidade de aprender. Existe, do ponto de vista cognitivo, um prejuízo na capacidade de fixação de memória, ou seja, uma certa dificuldade em gravar novas informações. Mas, exceto nos quadros em que já há um quadro demencial instalado, o prejuízo de memória mencionado não é total, é apenas parcial. Dessa forma, através de técnicas pedagógicas específicas ou até mesmo através da melhora do nível de atenção ou de persistência, o idoso consegue aprender conteúdos novos e aplica-los em sua vida. Pode, desde ler um livro e, saber descrevê-lo posteriormente, até aprender conteúdos para dar uma palestra na sua comunidade.
Segundo "Mainstream Science on Intelligence" publicado no The Wall Street Journal, que foi assinada por 52 pesquisadores sobre inteligência, em 1994, define-se inteligência como:
"uma capacidade mental bastante geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, compreender idéias complexas, aprender rápido e aprender com a experiência. Não é uma mera aprendizagem literária, uma habilidade estritamente acadêmica ou um talento para sair-se bem em provas. Ao contrário disso, o conceito refere-se a uma capacidade mais ampla e mais profunda de compreensão do mundo à sua volta - 'pegar no ar', 'pegar' o sentido das coisas ou 'perceber'"
Assim, mesmo com algum grau de déficit de memória, mas estando preservadas as capacidades sensoriais, de percepção, de emissão de juízos e, especialmente, de atenção, orientação e de estabilidade emocional, o idoso permanece com inteligência preservada. Pode, às vezes, haver alguma alteração na elaboração do pensamento como a prolixidade e até o emprego de termos genéricos para nomear objetos, entretanto a inteligência permanece. A cultura absorvida ao longo da vida, as experiências práticas por que passou e até a menor urgência no dia-a-dia fazem do idoso, longe de alguém com inteligência diminuída, uma pessoa que tem muito a ensinar, orientar e aconselhar, fazem dele uma pessoa com sabedoria. Sabedoria, nem sempre acadêmica, mas de conhecimento subjetivo da vida.
Podemos ver, do ponto de vista fisiológico, vários fatores que dificultam o desempenho sexual do idoso. Alterações nos aparelhos genitais feminino e masculino, diminuição da libido por questões hormonais, efeitos colaterais de outras medicações como anti-hipertensivos. Do ponto de vista social, existem fatores que também dificultam como, por exemplo, estar morando na casa de um filho ou com menor individualidade. È importante perceber que todas essas dificuldades ocorrem, especialmente se pensarmos na sexualidade extritamente como o intercurso sexual (coito). Dessa forma, é muito bom esclarecer ao idoso que a sexualidade é muito mais que isso. Está no carinho, na fantasia, no desejo, na sedução, na expressão do corpo e até na vivência do assunto como um tema natural da vida humana, que não morre, apenas sofre mudanças em seu formato. Devemos esclarecer ao idoso também a respeito das evoluções médicas na sexologia e na descaracterização de que o idoso com libido é o idoso “safado”. Livrá-los do preconceito, com certeza trará para eles, confiança e auto-estima
A morte é parte da vida de qualquer pessoa. O momento em que ela ocorre é desconhecido para qualquer um. O idoso pode estar mais perto da morte se considerarmos a morte por falência natural dos órgãos. Entretanto, as mortes que ocorrem por fatalidades, por doenças agudas ou por comportamentos de irresponsabilidade com a vida não estão sujeitos à idade maior ou menor do indivíduo. Além disso, enquanto se está materialmente vivo, pode-se estar subjetivamente morto se não houver sonhos, planejamentos e desejos e isso pode acontecer com um adolescente se sua personalidade o predispuser a isso. Torna-se importante esse esclarecimento ao idoso e, também, uma orientação sobre a manutenção dos seus planos e objetivos como nortes de vida e como potenciais indutores de felicidade.


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Quando informamos uma pessoa sobre suas capacidades, sobre as questões culturais que norteiam o pensamento da população e quando damos a ela elementos que proporcionarão a ela a estruturação de raciocínio, de interpretação, de crítica e de defesa, damos também a essa pessoa a capacidade de agir e de participar ativamente do meio em que ela vive. Damos, consequentemente à essa pessoa, a possibilidade de dar suas opiniões, contribuir, argumentar, manifestar-se e, portanto, humanizamos essa pessoa e a retiramos da posição de mero espectador, adereço ou, pior, peso para as pessoas desse mundo.
A informação retira o idoso da ignorância e da situação sombria de falta de cidadania e autonomia. Naturalmente, devolve a ele auto-estima e a sensação de que é respeitado. Isso, sem dúvida o afasta de doenças mentais como depressão e ansiedade, de doenças oportunistas secundárias à baixa imunidade e até da progressão de uma condição degenerativa qualquer.
Tirar qualquer pessoa da ignorância, informá-lo e educá-lo é um ato a ser praticado e estimulado, sobretudo com o idoso, que é vítima de tantos preconceitos que quando absorvidos por eles próprios, os fazem acreditar realmente que já “passam da hora de morrer”.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



BERGO, Maria Stela A, CUNHA, Elza C, SALES, Claudete S e ALMEIDA, Lícia Vasconcelos. Idosos - proposta e possível público alvo para uma Universidade da Terceira Idade. Cianorte-Paraná: Artigos do I Seminário Internacional de Educação, Ed. Universidade Estadual do Paraná, 2001, p.1712-1716

BOTH, Agostinho et all. Envelhecimento Humano: múltiplos olhares.
Passo Fundo, UPF, 2003.

FREITAS, E.V.; PY, L., A. L.; CANÇADO, F. A. X.; DOLL, J. & GORZONI, M.L. (orgs.). Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, 2ª ed.; pp.154-163.

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