sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Respeito pelo corpo sem vida: uma questão ética

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
Pró- Reitoria de Pós Graduação e Pesquisa
Programa de Pós Graduação Mestrado em Gerontologia
Disciplina: Tópicos Especiais Sobre a Velhice
Prof. Dr. Vicente Paulo Alves
Mestranda: Carla Bianca F. M. Zanon


Respeito pelo corpo sem vida: uma questão ética
O processo do envelhecimento e suas conseqüências naturais, a velhice e a morte é uma preocupação da humanidade de remotos tempos. Muitas pessoas, a partir de abordagens, científicas, filosóficas e religiosas tentaram entender e intervir nesses processos ao longo dos anos. Os avanços da ciência conseguiram prolongar a vida, mas não foi possível evitar a morte. Por sua vez a filosofia e as diferentes religiões tentaram entender e explicar a morte, mas também, não conseguiram evitá-la.
Apesar do fenômeno da morte ser inevitável ocorrência da vida, ele não pode ser considerado apenas pelo prisma biológico. Os aspectos sociais, religiosos e éticos também deverão ser considerados. Com tratar o corpo desprovido de vida considerando os aspectos biopsicossociais, ético e espiritual será o mote das reflexões desse artigo.
Para tanto, iremos apresentar um relato de experiência de um grupo de alunos do curso de enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“O preparo do pacote”
Os referidos alunos para a disciplina de Metodologia de Enfermagem II teriam que apresentar um seminário a partir de um artigo Intitulado “O pacote e a enfermagem, analise crítica de uma morte.” Pacote é o nome usado, inadequadamente, para o corpo sem vida após seu preparo pelos enfermeiros. Significa “pequeno fardo ou embrulho” (NASCIMENTO et al, 2007, p.169).“
A discussão do artigo girou em torno dos procedimentos técnicos dispensados ao corpo após a morte, que talvez pelo volume de serviço, é feito de maneira mecânica, sem refletir sobre o contexto que envolve aquele corpo sem vida. A relação enfermeiro/paciente extrapola-se, pois também a família envolvida, necessitando repensar atitudes e sentimentos relativos à vida à morte.
Após discussão inicial, o grupo de alunos que estava apresentando o seminário se posicionou em volta de uma mesa, todos vestidos de preto. Próximo a mesa foi deixado, intencionalmente, um embrulho envolto em um plástico similar ao usado para transportar cadáver.
Durante a apresentação do seminário o “pacote” permaneceu em um canto, sem que os alunos o mencionassem. Após a apresentação do seminário o grupo de alunos se aproximou do pacote e, abrindo o zíper retirou de dentro dele vasos de flores que foram entregues aos colegas. Solicitaram, em seguida, que os colegas se aproximassem e retirassem do pacote os objetos lá contidos. Os objetos “pessoais” retirados eram colocados em um quadro. Os objetos: bandeira do Brasil, foto de casamento, Xerox da identidade, uma roupa de bebe, cigarro, etc... Ao termino da apresentação iniciou-se a avaliação da dinâmica. Os alunos perguntaram aos colegas se o assunto tinha sido pertinente e se eles haviam entendido a mensagem e se ela seria útil para seu trabalho.
Avaliando e interpretando a dinâmica
Ao analisar o quadro com o conteúdo do “pacote”, os componentes do grupo sugeriram aos colegas que, ao prepararem um corpo lembrassem que ele teve uma historia, nasceu em um país, teve uma família, filhos, tinha um carro, fumava etc.. Em fim era o perfil de uma pessoa comum, que poderia ser qualquer um de nós, um amigo ou um parente. E as flores? Elas simbolizavam a subjetividade de cada pessoa, que a partir da morte, elas só fariam parte das lembranças dos entes queridos que ficaram, e que eram relativos a pessoa que morreu: amor de pai ou de mãe, afeto de amigo, respeito admiração.
Sendo assim as pessoas que se relacionaram com aquele corpo, e nutriram sentimentos por ele, não gostariam de vê-lo tratado como um pacote. Ou seja, mesmo sem vida o corpo merece ser tratado com respeito e que isto é uma questão ética.
Oportuno apresentar o artigo 3º do Código de Deontologia dos Profissionais de Enfermagem, que diz: “os profissionais de enfermagem respeitam a vida, a dignidade e o direito da pessoa humana em todo o seu ciclo vital, sem discriminação de qualquer natureza.” Como interpretar o cuidado dos profissionais da saúde com o ser humano desconsiderando a complexidade do trabalho de enfermagem e os múltiplos fatores relacionados a ele? Não é possível ignorar as interferências internas e externas ao trabalho. ( apud NASCIMENTO et al, 2007, p.170)
As avaliações do seminário foram positivas, e sensibilizaram os participantes, levando-os a repensarem a pratica do trabalho bem como o uso, quase pejorativo, da palavra pacote designando um corpo sem vida. O valor filosófico do trabalho também foi reconhecido.
Considerações finais
Os questionamentos apresentados por Ruiz e Pessini (2006) a respeito do comportamento das pessoas durante e depois do contato com o cadáver nas aulas de anatomia humana, buscando refletir sobre a preservação do respeito e da dignidade após a morte ratificam as considerações apresentadas pelo trabalho supracitado.
Considerando que a anatomia uma disciplina importante para as ciências da vida e da saúde e que sem ela muitas pesquisas na área da saúde seriam prejudicados ou até mesmo se tornariam inviáveis. Fato ocorrido na Idade Média, devido à sacralidade do corpo, o progresso da medicina foi prejudicado. Há de se tomar medidas práticas à luz da bioética, que balizem o trato com o cadáver, tratando-o de forma digna. Procurando lembrar que o corpo, ora inerte, teve uma história, uma família, fato retratado na dramatização dos alunos de enfermagem, e, portanto merece respeito.
Lembramos ainda, que a postura ética e um complemento da postura técnica, que todo profissional da saúde ou de outras áreas que lidam diretamente com ser humano devem primar.
Devemos reconhecer a que humanidade necessita ainda vencer muitas barreiras culturais e religiosas que envolvem o manuseio do cadáver, para tanto precisa de uma formação moral e ética.

Referências Bibliográficas
NASCIMENTO, Maria Aparecida de Luca et al. O cuidado da enfermagem com o corpo sem vida. Texto & Contexto Enfermagem. Santa Catarina, ano/vol 16, nº 001; p. 168-171. Disponível em http://www.redalyc.uaemex.mx
PESSINI, Leo. “Bioética, envelhecimento humano e dignidade no adeus à vida”. In FREITAS, E.V.; PY, L., A. L.; CANÇADO, F. A. X.; DOLL, J. & GORZONI, M.L. (orgs.). Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, 2ª ed.; pp.154-163
RUIZ, Cristiane Regina & PESSINI, Leo. Lições de Anatomia: vida, morte e dignidade. O Mundo da Saúde. São Paulo, ano 30; 30 (3): 425- 433. jul/set. 2006. Disponível em http:// WWW.scamilo.edu.br

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