Por: Andréa Moraes Ribeiro
INTRODUÇÃO
Falar da morte ainda é um tabu na sociedade atual. Dissertar sobre este tema é algo difícil, senão angustiante. Quantas vezes evitamos ambientes ou circunstâncias nos quais a morte é o assunto central? Temos medo de falar da mesma forma que tememos a sua presença, por isso nos calamos. Ao evitar discussões acerca deste tema estamos também tentando afastar a presença física e real da morte. Mas é necessário romper com o silêncio, porque a mesma maneira que o nascimento, a morte deve ser percebida como um fenômeno natural, inerente aos seres vivos. Na sociedade atual há uma tendência em relacioná-la com a velhice, como se os idosos fossem os únicos dados a morrer. Vários pesquisadores, inclusive, relatam uma maior aceitação da morte pelos idosos em comparação aos jovens. Mas como ocorre o enfrentamento da morte por essas pessoas? O fato de ser a velhice a última fase da vida torna a morte mais aceitável e natural? Estas são questões complexas que devem ser alvo de reflexões por toda sociedade.
O ENFRENTAMENTO DA MORTE PELO IDOSO
O envelhecimento tem início a partir do momento que nascemos, já diziam os filósofos. O envelhecer é um processo vital, inerente a todos os seres humanos. Logo, a morte é a única certeza de que se tem na vida, que o diga a sabedoria popular. Neste sentido, a morte revela-se como um desdobramento natural aos seres vivos, conseqüente ao processo de envelhecimento. Mas, o que dizer então das mortes prematuras? Quantos jovens perdem a vida antes da hora? No Brasil, ao se analisar dados estatísticos, no âmbito nacional, percebe-se que o índice de óbitos entre jovens na faixa etária de 19 a 29 anos é o maior de todos, sendo na maioria por homicídios e acidentes de trânsito, as chamadas causas externas, (DATASUS, 2005). Portanto a morte não existe apenas para os idosos, mas para todos que estão vivos.
Segundo Kovács (2003), o grande desenvolvimento científico-tecnológico da atualidade gerou grandes conflitos nas questões da vida e da morte. Com o conhecimento e tecnologia atuais é possível retardar ao máximo a concretude da morte, sendo esta “combatida” a todo custo. A vida é mantida por máquinas e tubos, a chamada distanásia. E isto trás a tona outros dilemas éticos, religiosos e culturais de grande complexidade: o que vale mais, uma vida com qualidade, mas possivelmente mais curta ou uma vida mais longa e sem qualidade? Ou seja, é válido manter a vida a qualquer custo mesmo que esta esteja carregada de dor e sofrimento? Estas, não são indagações particulares, mas compartilhadas por uma gama de estudiosos e tanatólogos. Esta autora, faz uso de uma fala que delineia todas estas questões: “Deixar morrer não é matar”. De modo que nas situações onde não há a cura ou o tratamento nada mais pode fazer pelo indivíduo o natural seria deixar a vida tomar seu curso final, a morte.
Está claro, então, que o homem é um ser destinado a morrer. E esta constatação desperta em cada um uma maneira própria de enfrentamento, que vai desde a total negação, a uma aceitação serena e consciente de que chegou o fim da vida. Os primeiros têm na distanásia um forte aliado, agarrando-se a tecnologia como último recurso para a vida. Mas e quanto aos idosos?
D`Assumpção (2008) aponta que há certo consenso mundial em torno da idéia de que os idosos aceitem melhor a morte que os jovens. Isto ocorreria pelo fato de terem tido uma vida longa e realizada, por terem maior proximidade com eventos que causam a morte, como as doenças incapacitantes e degenerativas, e por não se apegarem a vida, já que esta é menos valiosa que a dos jovens. No entanto, esta não é uma observação que se pode aplicar à realidade brasileira. Como a grande maioria dos idosos faz parte de uma classe sócio-econômica menos favorecida, é menos provável que tenham tido uma vida marcada por conquistas pessoais, prova disto é que segundo dados do IBGE (2000) é cada vez maior o número de idosos responsáveis pela manutenção econômica dos domicílios, sendo a renda, na maioria das vezes, o valor de um salário mínimo. O que revela uma dinâmica familiar marcada pela exploração econômica e psicológica do idoso, que abre mão de uma de melhor qualidade de vida para sustentar filhos e netos.
No entanto, apesar de todas as adversidades, o idoso brasileiro tem prazer na vida e a considera valiosa. Percebem a velhice como um privilégio e os estigmas negativos em torno do envelhecimento ficam na visão do outro (MINAYO, COIMBRA Jr. 2002). Portanto, a percepção do idoso sobre a morte não é diferente dos demais indivíduos. Esses concordam que a morte é um processo natural, mas não aceitam a finitude da vida. Em pesquisa realizada com um grupo de idosos no Brasil, Frumi e Celich (2006) revelam que estes entendem a morte como uma dimensão integrante da vida, singular, que ocorre com qualquer um, mas lançam mão de mecanismos de autodefesa frente a finitude do ser-no-mundo.
O apoio religioso no enfrentamento da morte é fundamental, já que muitos idosos percebem a morte como a passagem para um campo espiritual. “Pela espiritualidade nos preparamos para o encontro, face a face, com o Pai e Mãe de infinita bondade e misericórdia, criador de todas as coisas e fonte de nosso ser” (BOFF, 2001, p.73).
D`Assumpção (2008) enfatiza algumas questões importantes no trabalho com idosos portadores de doenças ou condições terminais. Para o tanatólogo o idoso experiência um maior número de perdas e numa velocidade maior que os demais grupos etários. Por vezes, a pessoa idosa tem que lidar com a morte do companheiro, amigos, filhos e netos. Podendo não haver tempo de elaboração dessas perdas. De modo que o idoso convive mais frequentemente com o luto. E esta é uma observação que deve ser considerada, já que na grande maioria das vezes a dor da perda de um ente querido é mais insuportável que a possibilidade da própria morte.
Este especialista defende a importância de se manter a auto-estima desses idosos, através do resgate do sentido de si mesmo, numa valorização da estória de vida, buscando, se possível, soluções para antigos conflitos e um novo sentido para a vida, ou para o tempo que ainda lhe resta.
CONSIDERÇÕES FINAIS
O envelhecimento e a morte são fenômenos inerentes á existência humana. No entanto, lidar com o fim da vida é algo penoso senão complexo para todos os homens. Na iminência da morte não é incomum se recorrer à tecnologia médica para manutenção da vida, mesmo quando a possibilidade de cura é inexistente, numa luta inútil a favor de uma vida que não existe mais. Não do modo como existia.
O enfrentamento da morte é singular, cada indivíduo lança mão de mecanismos próprios na elaboração do luto. O idoso não é uma exceção. Talvez para este o enfrentamento do luto seja menos doloroso, uma vez que existe a possibilidade de já se ter contemplado todas as conquistas pessoais um dia desejadas e por já ter se deparado com a morte num maior número de vezes, o que de certa forma se revela como uma “preparação para a morte”.
É fundamental que nesta fase da vida, ou na iminência de sua ocorrência, haja o apoio da família e amigos ao idoso no sentido de valorização e respeito à sua estória de vida e a seu legado aos que ficam. Nestas condições, o idoso terá a certeza de que sua existência na terra teve um significado, e poderá elaborar os próprios sentimentos de finitude da vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOFF, Leonardo. Espiritualidade: um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.
D' Assumpção, Evaldo. O Idoso Diante da Vida e da Morte. Academia Mineira de Medicina. (on line) Disponível em www.acadmedmg.org.br . Acessado em 4 May, 2008.
FRUMI, Cailene. CELICH, Kátia Lilian Sedrez. O olhar do idoso frente ao envelhecimento e à morte. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo (on line), 92-100 - jul./dez. 2006. Disponível em www.upf.br . Acessado em 04 de maio de 2008.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil 2000. Estudos e Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica , n. 9, 2002.
JARDIM, Viviane Cristina Fonseca da Silva. MEDEIROS, Bartolomeu Figueiroa de. BRITO, Ana Maria de. Um olhar sobre o processo do envelhecimento: a percepção de idosos sobre a velhice. Rev. Bras. Geriatr Gerontol. (on line) v.9 n.2 Rio de Janeiro 2006. Disponível em: www.unati.uerj.br/tse/scielo. Consultado em 03 de maio 2008.
KOVÁCS, Maria Julia. Bioética nas questões da vida e da morte. Psicologia USP (on line) v.14 n.2 São Paulo, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br
Minayo, Maria Cecília de Souza. Coimbra Jr, Carlos Everaldo Álvares. Entre a liberdade e a dependência (introdução). Antropologia, saúde e envelhecimento. Rio de Janeiro: Fiocruz. 2002. 212 p.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. DATASUS. In: Departamento de informática do SUS. Informações de saúde. Dados de mortalidade. (on line) 2005. Disponível em WWW.datasus.gov.br/datasus/datasus. Acessado em 04 de maio de 2008.
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