Por: Andréa Moraes Ribeiro
Mestranda em Gerontologia
INTRODUÇÃO
O homem contemporâneo assiste a uma época de inegável desenvolvimento técnico-científico e acelerada produtividade, capaz de promover significativas mudanças nos domínios da vida, destacando-se a intensa valorização da juventude e do jovem enquanto veículo de conquista do progresso econômico, social e cultural. Numa veneração ao corpo jovem e sadio. Em contrapartida, há uma crescente despersonalização do envelhecimento e da pessoa idosa. Sendo o corpo do idoso percebido como decadente, doente e incapaz. Este cenário é mantido paradoxalmente ao acelerado processo de envelhecimento pelo qual o Brasil vem passando. E uma característica marcante deste envelhecimento populacional é o aumento progressivo nas demandas aos serviços de saúde, uma vez que a velhice trás consigo uma gama de doenças crônicas. Logo, apesar de estarmos neste momento sócio-histórico de desvalorização do corpo do idoso, é imperativo que os profissionais de saúde estejam capacitados e sensibilizados para o cuidar destas pessoas, já que suas necessidades são várias e constituem uma demanda crescente nos ambientes de serviço. Além disso, faz-se necessária a mobilização de toda sociedade em prol do rompimento destes estigmas, já que todo idoso tem direito ao cuidado humanizado e ao respeito.
Neste contexto, a enfermagem enquanto profissão que lida com o cuidado humano, tem uma atuação de grande relevância na melhoria da qualidade de vida dos idosos, podendo proporcionar a estes uma assistência integral e idônea, livre dos danos de negligência e imprudência. Com respeito à autonomia e identidade da pessoa cuidada.
As representações sociais sobre o corpo do idoso/velhice e o “ser-estar-no-mundo” na visão da pessoa idosa
O Brasil está envelhecendo. Não é mais novidade que o país daqui a alguns anos terá uma das maiores população idosa do mundo. E este aumento no número de idosos vem acompanhado da necessidade de adoção de medidas específicas que atendam às demandas destas pessoas. Como o Brasil não se preparou adequadamente para este processo de envelhecimento, os idosos acabam sendo vistos como “problema” para o Estado e sociedade em geral. Já que não produz no mesmo ritmo que os demais indivíduos, os velhos são percebidos como inúteis e desnecessários. “o processo biológico, que é real e pode ser reconhecido por sinais externos do corpo, é apropriado e elaborado simbolicamente por todas as sociedades, em rituais que definem, nas fronteiras etárias, um sentido político e organizador do sistema social" (MINAYO & COIMBRA Jr., 2002:14). De modo que o corpo do idoso recebe uma conotação negativa, simbolizando a deficiência e improdutividade.
No entanto esta não é uma visão dos próprios idosos. Vários estudos realizados revelam que os idosos encaram a velhice como mais uma etapa da vida, sujeita a novas conquistas. “Diferentemente da visão negativa e homogeneizadora do outro em torno da velhice, de maneira geral os idosos vivenciam o processo do envelhecimento de forma diferente e relatam a velhice como uma fase de prazer, não sendo percebidos conflitos, frustrações ou dramaticidade na forma de vivenciarem a velhice” (JARDIM et.al. 2006). Portanto apesar das condições físicas e psicológicas estarem em declínio progressivo no envelhecimento, e de todos os estigmas depreciativos em relação à velhice e ao seu corpo, os velhos ainda aspiram á realizações de vida e sonham de alguma forma conquistá-las.
O papel dos profissionais de saúde e a contribuição da enfermagem
Diante de todo este cenário, os profissionais de saúde devem estar sensibilizados e capacitados para atender às necessidades específicas desta população. Contribuindo para a desmistificação da velhice enquanto “fase pré-morte”. De modo que a Enfermagem, reconhecida pelo cuidado humano, surge como uma alavanca neste movimento. Uma vez que lida diretamente com o corpo do outro e as significações que este representa na vida dos indivíduos.
Desde sua origem, a enfermagem tem-se preocupado com o cuidar enquanto instrumento de trabalho, sendo considerado por vários autores como o “saber da profissão”. Mas o que é mesmo o cuidar/cuidado?
Discorrendo sobre o cuidar, Boff (2001) o contempla como um momento de atenção e zelo, de forma que não pode ser visto apenas como um ato, mas sim como uma responsabilização e envolvimento afetivo com o outro. Falar de cuidado significa falar do ser humano, pois esse é inerente à constituição e à natureza humana. “Se não receber cuidado, desde o nascimento até a morte, o ser desestrutura-se, definha, perde sentido e morre” (BOFF, 2001, p.34). Nesta perspectiva, o cuidado na enfermagem deve revela-se como o “estar com o outro”, percebendo suas angústias e necessidades. “ A finalidade do cuidar na enfermagem é prioritariamente aliviar o sofrimento humano, manter a dignidade e facilitar meios para manejar com as crises e com as experiências do viver e do morrer” (WALDOW, 1998, p.129). Portanto, este cuidado implica no respeito ao corpo do outro.
Para Capella (1996) este corpo deve ser entendido como um corpo natural, histórico, social e, ao mesmo tempo, individual, singular e único, pois é muito mais que um organismo vivo oscilando entre saúde e doença, é também o foco de um conjunto de crenças sobre seu significado social e psicológico, sua estrutura e funcionamento.
Neste contexto, então, a assistência de enfermagem ao idoso deve ser caracterizada pelo zelo e envolvimento, numa relação de confiança mútua e respeito ao corpo do idoso, considerando-o como forma de ser-estar-no-mundo. Mas como dar esta assistência sem ferir os princípios éticos da beneficência e autonomia da pessoa idosa? Eis uma questão complexa para qual muitas vezes o profissional de saúde não tem resposta, mas que deve ser alvo de discussões e reflexões dentre as várias categorias profissionais.
Inúmeras vezes os profissionais de saúde deparam-se com questionamentos que podem ser mais bem compreendidos através da Bioética. É evidente que devamos seguir os preceitos e normas do código de ética da profissão. Na enfermagem, por exemplo, o código de ética profissional é claro ao normatizar que é responsabilidade e dever do profissional de enfermagem respeitar a autonomia da pessoa sob seus cuidados. No entanto, na prática, no convívio diário com a pessoa assistida, especificamente com o idoso, é necessário uma reflexão constante sobre nossas atitudes. Pois, será se o bem que acreditamos estar praticando em prol do idoso, tem as mesmas representações para este? É do conhecimento de muitos que o bem para um indivíduo nem sempre é o bem para outro, já que cada pessoa é um ser único, individual, com seus próprios saberes e vivências.
Mas a bem da verdade, apesar do discurso em torno do cuidado de enfermagem, enquanto instrumento de cuidado humano, a formação destes profissionais ainda é permeada por uma visão tecnicista de suas práticas. Nas academias, os estudantes são instigados a se afastarem do sofrimento humano, num mecanismo de auto defesa. E ao não sentir a dor do outro, não ocorre o envolvimento, o vínculo de confiança e segurança que devem ser a essência do cuidado. Logo, nestas condições, o respeito ao corpo do idoso, assistido pela enfermagem, pode se configurar como algo complexo, difícil de ser atingido.
Faz-se necessário, então, que nos cursos de enfermagem seja tomada uma nova postura na formação e sensibilização dos estudantes, para que na vida profissional suas práticas se configurem como o verdadeiro cuidar do outro, tão preconizado pelos fundamentos da profissão. Além disso, é importante que neste momento sócio-histórico de desvalorização da velhice e do corpo do idoso, a Bioética possa ser um instrumento regulador das ações humanas, intermediando as discussões em todos os campos do cuidado. Levando-se em consideração que o próprio idoso não percebe o corpo como algo depreciativo, mas a velhice como mais uma fase da vida, passível de realizações pessoais.
CONSIDERAÇÃOES FINAIS
Apesar de estarmos numa era de “endeusamento” do corpo jovem e sadio, o Brasil está tendo um aumento progressivo no número de idosos. Contudo, a capacidade de alcançar a velhice, deixou de ser para a sociedade um privilégio, para tornar-se um fardo, um problema. Contrariando a percepção acerca do envelhecimento como processo natural da vida, inerente aos seres humanos e conseqüente a uma melhor qualidade de vida.
É imperativo que o estado e a sociedade articulem forças no sentido de desmistificar estas representações sociais acerca da velhice. Uma medida imprescindível é a adoção de políticas públicas de apoio à pessoa idosa. O Estatuto do Idoso já é uma realidade no Brasil, mas ainda carece de implementação efetiva.
Como esta parcela da população demanda os serviços de saúde e carece de uma atenção diferenciada, os profissionais devem se mobilizar no sentido de oferecer um cuidado integrado e humanizado, onde o idoso é visto como um ser complexo, autônomo e com desejos próprios. Neste ponto, a enfermagem, por lidar diretamente com o corpo do idoso, tem uma posição privilegiada, pois pode desencadear e fortalecer um movimento de valorização da pessoa idosa, enquanto receptora do cuidado e protagonista no processo de cuidar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: Ética do Humano-Compaixão pela terra. 7. ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2001, 199 p.
CAPPELA, Beatriz. Uma abordagem sócio-humanística o “modo de fazer” o trabalho de enfermagem. Tese de doutorado em Filosofia da Enfermagem UFSC, Florianópolis, 1996. 221 p.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil 2000. Estudos e Pesquisas: Informação Demográfica e Socioeconômica , n. 9, 2002.
JARDIM, Viviane Cristina Fonseca da Silva. MEDEIROS, Bartolomeu Figueiroa de. BRITO, Ana Maria de. Um olhar sobre o processo do envelhecimento: a percepção de idosos sobre a velhice. In: Rev. Bras. Geriatr. Gerontol. v.9 n.2 Rio de Janeiro 2006. Disponível em: www.unati.uerj.br/tse/scielo. Consultado em 03 de maio 2008.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. COIMBRA Jr, Carlos Everaldo Alvares. (org.). Antropologia, Saúde e Envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002. 212 p.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. Violência contra o idoso: relevância para um velho problema. Cad Saúde Pública, Brasília: Imprensa Nacional. 2003 Jun; 19(3): p. 83-91.
NOVAES, Maria Helena, SCHIPER, Aline, COUTINHO, Ana Paula et al. A influência da representação social no atendimento psico-sócioeducativo do idoso. Psicol. esc. educ. [online]. 1996, vol.1, no.1 p.25-29. Disponível em: www.pepsic.bvs-psi.org.br/scielo . Consultado em 03 de Maio 2008.
WALDOW, Vera Regina. Cuidado Humano: O resgate necessário. Porto Alegre. Editora Sagra Luzzato, 1998, 199 p.
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