terça-feira, 10 de junho de 2008

A finitude da vida e os cuidados paliativos na prática hospitalar


Rossana Alfinito Kreis
Bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Brasília
Mestranda do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília - UCB, Brasília – DF – Brasil.
E-mail: ralfkreis@yahoo.com.br

Introdução

Morte designa finitude, indelével certeza da humanidade (FREUD, 1974). Nesse sentido, a morte é visualizada, quase sempre, ao outro e não a si próprio (HEGEL, 1992).

Essa temporalidade da vida constantemente traz à sociedade elementos que se resumem em angústias e dores. Nesse aspecto, a cultura ocidental tem sido marcada por uma oposição quanto a finitude da vida e que, de alguma maneira, é inevitável a todo ser vivente (BELLATO & DE CARVALHO, 2005).

Nesse aspecto, a finitude da vida e os cuidados paliativos são elementos que se entrecruzam e que devem ser considerados, sobretudo, quando os cuidados paliativos delineiam a preocupação do chamamento ao outro, sem expropriá-lo da experiência essencial do seu morrer (SCHRAMM, 2002).

A finitude da vida e os cuidados paliativos

A morte tem sido tema de importantes discussões sobre a promoção e assistência à saúde e organização de serviços (REGO & PALÁCIOS, 2006), visto que o morrer tornou-se, sobretudo, um fenômeno público (ARIÈS, 1977).

Não obstante, para muitos profissionais da saúde a morte tem designado aspectos que caracterizam fracasso e incompetência no atendimento ao paciente, sendo a luta da vida a garantia do êxito profissional. Diante disso, a conscientização da finitude humana e sua (re)valorização devem ser direcionadas à toda a extensão social, visto que a morte também é um processo natural do ciclo da vida (REGO & PALÁCIOS, 2006).

Promover bem-estar às populações é essencial no campo da Saúde Coletiva (SCHRAMM, 2005), sendo, inclusive, de suma importância aos pacientes que estão à beira da morte, os quais exigem um tratamento e um cuidado especial diante da fase que estão vivendo.

Todavia, essa luta ou cuidado pela vida não deve apresentar egoísmo ou uma obstinação insensata do viver, fruto, por vezes, de um altruísmo que nem sempre é legado ao ser humano. Portanto, reconhecer possibilidades ou mesmo limitações faz parte da realidade, sendo também saudável à nossa psique frente questões que não nos compete questionar, como o surgimento da vida ou o seu término repentino.

Assim, surge como elemento fundamental o cuidado paliativo, termo que denomina o cuidado ao fim da vida e, que muitas vezes, está associado ao cuidado da dor (DE SIMONI & DOS SANTOS, 2003).

Desse modo, os cuidados paliativos são mais que uma opção terapêutica, mas um direito de todos que visam uma melhor qualidade de vida ao deparar com situações que ameaçam à vida (ARAÚJO, 2005).

Emerge, então, um conjunto de teorias e práticas entre os profissionais da saúde, cujo objetivo visa à promoção da qualidade do fim da vida do paciente. Dessa maneira, os cuidados paliativos denotam, por exemplo, qualidade de vida geral; desempenho e bem-estar físico, psicossocial e espiritual do paciente e, também, percepções e bem-estar de sua família (REGO & PALÁCIOS, 2006; SINGER & BOWMAN, 2002).

Associado a isto está a valorização da autonomia do paciente ao fim da vida, assegurando meios e situações que ampliem a qualidade de vida e que viabilizam o próprio processo de escolha daquele organismo (BUSS, 2000).

Dessa maneira, o entendimento da finitude humana e os cuidados paliativos na prática hospitalar são essenciais para a promoção da qualidade de vida e bem-estar do paciente ao fim da vida. A ausência ou a negligência de quaisquer desses elementos pode resultar em prejuízo ao indivíduo que se encontra hospitalizado e ao mesmo tempo fragilizado.

Considerações finais

A vida é a expressão do surgimento de um indivíduo a partir de outro organismo pré-existente. Assim, aos vivos se tem a certeza do morrer, que se traduz pela vida finita.

Compreender e assimilar o processo natural da vida e da morte é fundamental a todo ser humano. Pelo amadurecimento se tem a sensibilização e, conseqüentemente, o aflorar de um cuidar mais humanizado. Dessa forma, o cuidar do próximo deixa de ser um processo simplesmente mecânico e distante, passando a ser dialógico e compartilhado.

Assim, os cuidados paliativos vêm para amenizar sofrimentos e proporcionar bem-estar e qualidade de vida ao paciente ao fim da vida, sendo uma opção viável e positiva aos que precisam.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, C.O. Brasil celebra o Dia Mundial de Cuidados Paliativos e Hospice e é um dos países mais atuantes nas comemorações. Prática Hospitalar; ano VII, v. 42, 2005 http://www.praticahospitalar.com.br/pratica%2042/pgs/materia%2010-42.html

(acessado em 06/05/2008).

ARIES, P. História da morte no ocidente. Rio de Janeiro: Franscisco Alves; 1977.

BELLATO, R.; DE CARVALHO, E.C. O jogo existencial e a ritualização da morte. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 13, n. 1, p. 99-104, 2005

BUSS, P.M. Promoção da saúde e qualidade de vida. Ciência & Saúde Coletiva, v. 5, n. 1, p. 163-177, 2000.

DE SIMONI, M.; DOS SANTOS, M.L. Considerações sobre cuidado paliativo e trabalho. Psicologia USP, v. 14, n. 2, p. 169-194, 2003.

FREUD, S. Nossa atitude para com a morte. In Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Ed. Imago, v. XIV, Rio de Janeiro, 1974.

HEGEL, G.W.F. A fenomenologia do espírito. Ed. Vozes, Petrópolis, 1992.

REGO, S.; PALÁCIOS, M. A finitude humana e a saúde pública. Cad. Saúde Pública, v. 22, n. 8, p.1755-1760, 2006

SCHRAMM, F.R. Morte e finitude em nossa sociedade: implicações no ensino dos cuidados paliativos. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 48, n. 1, p.17-20, 2002

SCHRAMM, F.R.; BOWMAN, K.W. A moralidade da biotecnociência: a bioética da proteção pode dar conta do impacto real e potencial das biotecnologias sobre a vida e/ou a qualidade de vida das pessoas humanas? In: SCHRAMM, F.R.; REGO, S.; BRAZ, M.; PALÁCIOS, M. (orgs.). Bioética, riscos e proteção. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Editora Fiocruz, 2005, p. 15-28.


SINGER, P.A,; BOWMAN, K.M. Quality end-of-life care: a global perspective, BMC Palliat Care, 2002.

http://www.biomedcentral.com/1472-684X/1/4 (acessado em 06/jun/2008).

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