FINITUDE HUMANA E O SERVIÇO PÚBLICO DE SAÚDE
RELATO DE CASO
Thaís Rocha e Póvoa
Mestranda em Gerontologia pela Universidade Católica de Brasília.
Disciplina Tópicos Especiais em Gerontologia.
Brasília, 17 de junho de 2008.
Ainda na residência médica em psiquiatria, estava acompanhando uma paciente no ambulatório, já há 7 meses, com diagnóstico de depressão refratária a tratamento. Tratava-se de uma senhora de 67 anos, sempre cabisbaixa, chorosa, encurvada, com a musculatura cervical sempre tensa, com humor deprimido e algumas alucinações primárias esporádicas. Sempre se queixava de extremo medo de ficar sozinha.
Já havia usado vários tipos de medicações mas sempre sua melhora era discreta e ela voltava a piorar depois de um tempo. Chamava-me a atenção um espasmo das pálpebras, sobretudo da direita, que ocultava seus olhos azuis, sempre molhados de lágrimas. Para investigação desse espasmo, encaminhei a paciente para o neurologista o qual não encontrou nada que justificasse tal sintoma. Posteriormente, encaminhei a paciente para o oftalmologista, o qual, após exame minucioso, também relatou nada encontrar de patológico na paciente.
Estava preocupada com a paciente, não só com os seus olhos, como também com sua depressão que melhorava muito lentamente. Foi então que, mesmo atrasando o atendimento dos demais pacientes que aguardavam, e tumultuando a sala de espera do ambulatório do hospital público em que estava, resolvi ouvir aquela paciente de um jeito diferente e por um tempo mais prolongado. Ela falava lentamente e de forma entrecortada mas deixei que ela falasse mais sobre sua vida e fiquei menos limitada aos sintomas e efeitos colaterais das medicações. Após umas 3 consultas dessa forma, chegou o dia em que algo começava a ficar diferente na nossa relação.
Ela começou a discorrer sobre sua infância e adolescência. Filha de pai alcoólatra, casou-se ainda com 14 anos para viver em outra casa. Na primeira noite com o marido, um sujeito que ela mal conhecia, foi espancada e, no outro dia, logo cedo, ele saiu arrastando-a pela cidade pequena em que morava gritando que iría devolvê-la ao pai porque não era mais “moça”. Muita injustiça e humilhação, não só era “moça” como era ainda criança. Enquanto me contava tudo isso, sua pálpebra direita cerrou-se com tamanha força e seu pescoço foi ficando cada vez mais rígido. Sintomas que pioraram quando disse que, dessa única noite, surgiu uma gravidez e que quando o bebê nasceu foi obrigada a entregá-lo para adoção. Nunca mais viu essa criança...
Percebi que havia um sofrimento muito grande naquela senhora e que, há anos, era evidenciado pelo seu corpo na forma de sintomas - o espasmo palpebral e a distonia cervical. Percebi que sua personalidade histérica vinha, ao longo da vida, possibilitando o surgimento de conversões (manifestações somáticas de conflitos intrapsiquicos). Infelizmente não consegui resolver completamente seu problema mas considero que contribuí muito para aliviar seu sofrimento, não só pelo fato de ter aberto meus ouvidos mas também pela possibilidade que tive de encaminhá-la para um psicanalista.
Essa senhora permaneceu com melhora de sintomas, com tratamento psiquiátrico e psicanalítico, por aproximadamente 10 meses. Ao final desse período, houve recidiva forte dos sintomas em função da falta de medicamentos que lhe eram entregues gratuitamente no posto de saúde. Impossibilitada de comprar os medicamentos por ser uma pessoa com muitas dificuldades financeiras, essa paciente teve um agravamento do quadro clínico e acabou cometendo suicídio.
Nesse caso, as dificuldades do atendimento público (seja o descaso, seja a imensa demanda que condiciona os profissionais de saúde a não dispensarem tempo adequado aos atendimentos, seja a desumanização do atendimento de saúde), não só levaram essa paciente a ficar grande parte da vida sem ter um diagnóstico mais preciso e, portanto, sem ter a terapêutica adequada, como também condicionaram uma recidiva de sintomas que induziram à abreviação de sua vida.
A finitude da vida, infelizmente, é mostrada a nós de forma crua, súbita e, nem sempre, de forma natural. Sem a morosidade e a burocracia dos serviços públicos de saúde, dos quais vários pacientes dependem. Às vezes, somos surpreendidos quando chegamos para trabalhar em um ambulatório público, com a fria notícia de corredor :
“ _ Doutora, lembra daquela velhinha que se tratava aqui?... Se matou ontem.”
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